terça-feira, 7 de outubro de 2008

hmm

- Acorde Lise. disse sua mãe, abrindo a janela.
Lise olhou para cima e viu o céu, que estava azul, azul límpido, bebê, com poucas nuvens mas, que pareciam algodões doces, com suas formas e tamanhos, dava vontade de comer. Que dia magnífico pensou, vai ser bom! Isso seria se quando sentasse em sua cama, não viesse um balde de água fria por cima dela. Olhou para o relógio, marcava oito e quinze. Oito e quinze, e a aula? será que me deixaram faltar ou simplesmente esqueceram? mas o som da voz de sua mãe, estava meio apavorada, meio chorona para ser algo do tipo, de repente percebeu a mala em cima de sua escrivaninha.. que diab.. é isso? é março! A menina congelou, algo aconteceu, algo aconteceu. Era só isso que a cabeça dela conseguia pensar.
- Mamãe?
- Sim Lise ?
- O que é tudo isso? malas? horas? e essa cara de choro? mamãe oque houve?
- Lise, voce.. precisa.. se arrumar.. rápido. Uma pausa, uma respiração pesada, uma lágrima caindo, era assim que se encontrava a senhora Vitória. - Vamos viajar.. temos que ir.. a um enterro.
- Enterro mamãe? como assim?
Nesse momento, lise já estava lacrimejando, esperando não ser o que passou pela sua mente. Por favor, diga que não é isso mamãe, diga vamos.
- Querida.. não sei.. como te falar isso.. aconteceu ontem a noite.. por volta da uma da manhã.. seu vô faleceu. E Vitória abraçou-a, forte, derramando lágrimas e mais lágrimas. - Por favor minha filha, ande depressa, vamos viajar. E saiu do quarto.
Não podia acreditar no que ouvira, como isso aconteceu? como? as lágrimas ia rolando e seu estado de choque ia aumentando, não, não aconteceu. Se negava a acreditar, ah vovô! você não fez isso comigo, e nossos dias andando pelas ruas como você queria? afinal era pra isso que não querias a cadeira de rodas? Lembrou-se, do dia que o visitara no hospital que ele falou: Você esta cada dia mais linda Lise! ah, e agora? como pudera ter a abandonado assim? Mas ele sabia. Ele sabia.
Não demorou muito estava no carro, indo para o enterro, quando pisou para fora, já era noitinha fazia frio, batia vento, limpando o rosto macio dela. Talvez seja vovô, pensou. Passou a noite a velar, andando, sentada no banco da praça, perplexa, chegou perto do corpo, não pôde acreditar! não pôde, pensava só em vovô, acorde, eu estou aqui, eu estou aqui! te perdôo por essa brincandeira sem graça, mas acorde, se mexa, por favor, só por um instante, só pra me mostrar que você tá aqui. E as lágrimas rolavam, sua cabeça latejava e seu estômago ficou cada vez mais embrulhado. Ele estava tão lindo e tão perfeitamente colocado naquele terno azul! Só faltava abrir os olhos, certamente combinaria com o seu terno, pensava. Ah, aqueles olhos azuis, tão visivelmente amigáveis e feliz quando ela chegava por perto, aqueles olhos tão profundos de tantos anos vividos! Nunca mais iria vê-los. Ande vovô, acorde. Por favor. Mamãe a levou para se deitar um pouco, relutou, ficou pensando na visão do seu herói, das vezes que o visitara e ele comprava chocolates, pastéis, coca-cola, sempre querendo agradar. E acabou adormecendo com suas idéias e seus sonhos. Acordou em duas horas, foi correndo para sala vê-lo, e ele ainda estava lá. Imóvel. Foi até perto dele e falou no seu ouvido: - Não se preocupe vovô, não vou deixar te fecharem, eu sei que você vai acordar. Quando foram fechar o caixão a menina se agarrou no corpo, agora já não tão quente, segurou sua mão, as lágrimas iam caindo, e falava baixinho: - vovô acorde, por favor, vamos, quero ver seus olhos alegres, só mais uma vez, por favor vovô. E nada, nem um movimento, nada. Chegou baixinho do ouvido dele e falou: - Prometo que vou andar por onde você quiser vovô, e imploro pra vovó não brigar contigo, por essa travessurinha, ande vovô acorde. Eu te amo, você sabe disso, não sabe? Mesmo assim, não aconteceu nada, além de um vento mais forte, será um sinal? a menina não conseguia parar de chorar, e começou a ficar alto, não podia acreditar. Simplesmente não podia. Então foram levando para enterrar, e ela pensava: - Vai ser uma reviravolta, ele vai acordar de ultima hora, tenho certeza disso. E então ficou esperando e nada, nem um sinal, ele não acordou. Nunca acordaria, dormiria para sempre e ela percebeu isso no momento em que estava vendo o coveiro jogar terra em cima, o desespero a bateu, mas uma voz de leve disse a ela: - Ele nunca irá embora Lise, estará sempre contigo, por perto te velando. Acredite nisso. Com certeza ele estaria, ela pensou. Ela nunca o deixaria ir.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

verão

Era verão, dias quentes, transbordando paixão. Finzinho de tarde a beira-mar, uma brisa leve, refrescando-o. E lá estava, sentado, pensando em como sua vida mudará em tão pouco tempo. Quando observara uma menina, magra, cabelos lisos, morena, de olhos tão penetrantes e tão verdes que seria quase incompreensivel se ele não se lembrasse dela. A sua menina. De algum tempo atrás, mas que fora sua. Vindo com todo aquele charme encatador, sem nem saber oque causava nas pessoas. Seu sorvete, derrentendo, e seu riso de menininha de quatro anos. Com certeza era ela. Ela. Então sua cabeça começa com seus devaneios, com lembranças daquele tempo, tão longe e tão perto daquele banquinho. O cheiro de verão, o perfume dela se propagando no ar, puxando as vezes que ela dissera que o amava. Pensou em se desculpar, pelas coisas do passado, por não ter dado o mercido valor a ela. E ela vinha se aproximando, mais linda do que nunca. Uma beleza inebriante, não se lembrara de como ela era bonita, como a simetria do rosto e a harmonia eram perfeitas. Seus olhos esmeralda, sua boca carnuda e seu nariz arrebitado, uma pele. Ah, como tinha vontade de reviver tudo! De para-la ali e falar que ainda a amava. Certamente o faria. Enquanto ela se aproximava o coração disparava tão depressa, que podia achar que era um ataque cardiaco, as borboletas divinas tinham se apoderado de sua barriga. Foi então que a linda jovem, deu um sorriso encantador, puro e verdadeiro, seus olhos se encheram de vivacidade. E ela começou a andar mais rápido, passando por ele, ele observava tudo. Quando olha para atrás, preferia não ter olhado. Sua menina, correndo para os braços de outro, com aquele ar apaixonado, aquilo que era dele. Então levantou-se, colocou as mãos no bolso, e deixou cair uma lágrima. Foi ai que percebeu, era tarde demais. Tarde demais. Apenas tarde demais para pedir desculpas.